11/09/2013

AC entrevista: Júlio Barbosa

 

Para começar, uma pergunta clássica: o que é comunicação?

Essa é a primeira grande discussão da área, ou seja, definir o que é comunicação. Para alguns profissionais, ela é uma parte do processo – um subsistema da Administração, dos Recursos Humanos, do Marketing e assim por adiante. Na minha opinião, comunicação é tudo. Afinal, não existiria a civilização se não fosse a comunicação. Saímos de um cenário em que podíamos apenas grunhir e sobreviver para experimentar um processo civilizatório graças à tentativa de se comunicar.

A barbárie, situação contrária a harmonia, é feita justamente pela falta de comunicação. Isso porque se trata de um estado de espírito em que as pessoas não conseguem se entender, rompendo com aquilo que nos torna uma sociedade. Então, acho que a gente pode falar que a comunicação é o que possibilita a ligação, a sociabilização do homem.

O mercado, como o conhecemos, surge muito tempo depois, no momento em que nossos antepassados começaram a estabelecer trocas constantes. No início, nosso desafio era se comunicar para sobreviver.

 

Nessa perspectiva, quem é o Relações Públicas?

Essa figura ganhou contornos e mais contornos ao longo das décadas. Tivemos um começo bem incipiente, quando erámos entendidos como “fazedores de coisas” – de eventos a atividades pontuais. Depois, passamos a ter um papel mais tático, ou seja, saímos do operacional e pudemos refletir sobre a comunicação corporativa, buscando caminhos para atuar em conjunto com a publicidade, por exemplo, ou entender a relação com o Marketing e com os negócios. Hoje, as Relações Públicas têm um papel mais estrategista, especialmente por estarmos na era da informação e do conhecimento.

Desde o nomadismo, há cerca de vinte milhões de anos, a humanidade mudou muito e nós também tivemos que mudar a forma de pensar. Consequentemente, o papel dos relacionamentos nas sociedades foi alterado. Em relação às empresas, muitos produtos e serviços são equivalentes e o fator de diferenciação é o vínculo que elas conseguem estabelecer.  Por isso, sou Relações Públicas e atuo há muito tempo com isso. Além de gostar é claro.

Nesse sentido, no meu trabalho atual, aqui no centro universitário penso e reflito: qual é o meu papel na Belas Artes? A resposta é: gerar diferenciais com base em uma agenda positiva. Preciso refletir sobre o que esta faculdade faz e pode fazer para se diferenciar das demais. Em outras palavras, quero descobrir o que ela pode agregar aos estudantes. Ao oferecermos formação, estamos indo muito além de simples cursos de graduação.

Assim, o papel dos Relações Públicas, principalmente pela própria experiência,  mudou absolutamente. Deixamos de vender coisas para trabalhar uma ideologia em processos de construção de marca.

 

Recentemente você assumiu a cadeira de Planejamento de Carreiras, um cargo diferente em relação às demais faculdades de comunicação. Pode falar um pouco sobre isso?

Do ponto de vista do professor, é bem diferente; mas do ponto de vista do profissional de Relações Públicas, não. Venho trabalhando com planejamento, imagem e reputação há muito tempo e essas são as bases para oferecermos aos alunos e ex-alunos da Belas Artes a credibilidade que eles desejam ter junto ao mercado.

A universidade inovou ao trazer um RP para esta posição, pois contamos com uma visão que integra comunicação e negócios. A Belas Artes poderia ter trazido um psicólogo ou alguém com expertise em RH e escolheu um escopo completamente diferente.

Mais do que elaborarmos o currículo e preparar os alunos para as entrevistas, queremos ajudá-los a construirem uma carreira, uma assinatura pessoal e essa marca é criada ao longo de toda a trajetória do estudante, essa concepção de carreira, de planejamento, só um Relações Públicas pode trazer. Temos reforçado esse conceito: a sua história não começa quando você pega o diploma, pelo contrário, ela tem início quando sai o resultado do vestibular. Essa visão mais global das Relações Públicas tem contribuído bastante para os processos de planejamento estratégico aqui em nosso departamento, que tem ainda a visão tática de um psicólogo e de uma pedagoga.

 

Temos visto muitos jornalistas reclamarem da falta de oportunidade de emprego e migrarem cada vez mais para o cenário de agências. Também existem publicitários se queixando de saturação do mercado. Sabemos que o RP sempre foi um profissional mais versátil. Você acha que esse é um de seus grandes diferenciais?

Foi essa característica que salvou as Relações Públicas. A princípio, as pessoas diziam o seguinte: “é tão genérico que não vai valer nada”. Porém, com a evolução social, com o processo da sociedade atual, da globalização, de uma sociedade fraturada, de uma sociedade que está em uma época híbrida – você não é moderno e nem antigo; não é contemporâneo, vivemos de contradições e coerências – o fato de ter o olhar mais abrangente sobre a comunicação e sobre os negócios salvou a área.

Usamos de uma ferramenta chamada “planejamento” para estabelecer uma relação com o mundo, o que facilitou as coisas. Em paralelo às outras áreas, focamos nos relacionamentos, abraçamos isso como uma causa.

Os jornalistas têm sofrido com a falta de veículos, que diminuíram em quantidade e, ainda, reduziram suas equipes. A sociedade se tornou mais protagonista quando pensamos na circulação de informações, pois as pessoas têm seus blogs, sites, perfis no Facebook e noticiam várias coisas, o tempo todo. Podemos dizer que há mais indivíduos “jornalísticos” e são muitos os que se percebem nessa perspectiva. O jornalismo deve se renovar como área, como formação e se estabelecer novamente. A publicidade tem mais vertentes que o jornalismo, mas também é dependente de veículos.

O que nos qualificou, então, foram os relacionamentos, que formam a base vital da sociedade atual. Não existe a possibilidade de marca, de produto, de escolha, sem esse relacionamento e é isso que está movendo as organizações. O que diferencia o trabalho do profissional de comunicação é a sua capacidade de estabelecer vínculos com os diversos públicos e, portanto, relacionamentos.

Saíamos na frente com, pelo menos, 10 anos de antecedência. E foi o que deu à área de RP um outro olhar, mais crítico, sobre si mesma.

 

Pages: 1 2 3




Deixe um comentário