10/03/2014

Muito além da tinta no muro

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Seja em pichações aleatórias ou em verdadeiras obras de arte no grafitti, a expressão que usa os muros como base para a imaginação é assunto de constante debate. Indo além, o Acción Poética utiliza espaços públicos para disseminar poesia, aumentando o leque das discussões acerca da liberdade criativa e cidadã 

Há 16 anos, o poeta mexicano Armando Alanís Prado, hoje com 44, incomodado com a ausência poética no mundo contemporâneo, saiu às ruas para pintar muros. Simples? Não muito. O morador de Monterrey, no México, inicialmente utilizava textos grandes para emitir suas ideias, mas que, com o tempo e a percepção de que havia um vazio entre ele e as pessoas, muitas vezes pela pressa do dia a dia, teve seu tamanho reduzido. Contrariando a repercussão anterior, a iniciativa atraia cada vez mais olhares curiosos, deixando o muro de sua casa para ganhar o mundo. Nascia, assim, o Acción Poética.

Graças à admiração do ator argentino Fernando Rios Kissner, 49 anos, morador da província de Tucumán, ao noroeste do nosso vizinho, o movimento passou a ser disseminado. Por intermédio de um amigo em comum com o idealizador, ele conseguiu autorização para levar a prática à América do Sul, que desde março de 2012 é amplamente acolhida pelos habitantes locais.

Grupos foram sendo formados e o Acción Poética, consequentemente, tomando proporções maiores. Com um limite máximo de oito palavras escritas na cor preta sobre um fundo branco, a principal exigência da ideologia é ter a permissão do dono da parede a ser modificada, assim, diferentemente das ações tecnicamente ilegais, feitas em grande parte durante a noite, a pintura pode ser feita à luz do dia.

A escolha das frases é democrática: pode ser de qualquer autor, desde que agrade o proprietário, que também está livre para apagá-la quando desejar ou pedir uma nova aos grupos. O único limitante de conteúdo visa evitar conflitos: temas relativos a partidos políticos ou religiosos não são permitidos, assim como frases discriminativas e preconceituosas. O autor nunca é revelado, prezando o coletivo da ideia, mesmo porque, quando veem alguém pintando nas ruas, algumas pessoas se juntam para ajudar. O projeto não tem fins lucrativos, sendo permitidas ações para arrecadação de renda inteiramente revertida em materiais, como pincéis e tintas.

O objetivo é claro: a palavra é um bem comum a ser valorizado e aberto para conhecimento e utilização de todos, bem como o seu efeito sobre os leitores. O movimento tem sentido exatamente pelo vínculo criado pelo do olhar do leitor. “Sempre estou atento para ver se encontro um novo muro pintado com poesia. Ler os muros de Acción Poética fazem ‘viajar’, refletir”, comenta Kissner. Assim, são prioridades as frases que envolvam a emoção e toquem o sentimento de quem lê. “Pode ser bom, pode ser ruim, mas sempre se sente algo ao ler uma poesia. Quando vemos uma região pobre, não queremos falar sobre a pobreza, sobre a qual as pessoas vivem e sabem que é ruim. Queremos frases bonitas que façam com que, ao lê-las, possam sorrir”, reforça o argentino.   

Atualmente, são organizados eventos em escolas e hospitais para a apresentação do movimento, com oficinas para que as pessoas escrevam suas próprias frases. Por conta da correria do cotidiano ou da dificuldade de acesso, foi criado o Acción Poética em casa e na escola: quem quiser compartilhar suas frases pode tirar fotos de cartazes ou lousas e enviar para a página do Facebook, disponibilizando-a para uma futura pintura.

Essa crescente divulgação nas redes sociais atraiu mais admiradores. Já existem adeptos nos Estados Unidos, Angola e Espanha, onde uma ONG ligada à AIDS passou a utilizar as fotos nas embalagens de camisinhas distribuídas gratuitamente. O incentivo à poesia tem um alcance surpreendente: já estiveram presentes, inclusive, em uma instituição de ensino para cegos, produzindo frases em macrobraile para a leitura com a mão inteira. Preocupando-se além de tudo com a preservação da cultura, em países como Peru, Chile e Paraguai as frases ganham versões nas línguas e dialetos locais.

Até novembro de 2012, estima-se que somente em Tucumán já teriam sido pintados 150 muros. No Brasil, a primeira parede a ganhar uma poesia, em fevereiro de 2013, está no bairro Cidade Nova, de Foz do Iguaçu (PR). A iniciativa chegou ao local por meio de estudantes da UNILA – Universidade da Integração Latino-Americana – que fundaram o coletivo Ação Poética da Tríplice. A frase escolhida foi a filosofia do projeto “sem poesia não há cidade”, mensagem tradicional ilustrada nos países em que o Acción Poética impacta. Infelizmente, algumas das pinturas já foram apagadas por ordem de políticos da região.

Contrastando com as “selvas de pedra” que viraram as grandes cidades do mundo, as intervenções nos muros públicos fascinam seus simpatizantes pela cor, pela liberdade e formação de identidade, mas são alvo de crítica por aqueles que prezam por um modelo estético mais sóbrio.

Em 2014, o documentário brasileiro Cidade Cinza intensificou os debates sobre o assunto no país, reforçando a arte presente no ato. É visível a diferença na valorização da forma de expressão nacional quando comparada à estrangeira: além da repercussão do Acción Poética, muitos dos brasileiros adeptos ao grafitti que têm suas obras expostas em galerias de renome em países europeus, enfrentam uma série de barreiras responsáveis por calar um manifesto que, em muitos casos, visa apenas a livre circulação de ideias.

* A ArteConteúdo agradece a estudante de jornalismo Gabriela Rodriguez, que colaborou com esta publicação por meio do projeto “Jornalismo Sem Fronteiras”, que concluiu como correspondente na Argentina em 2013 pela Faculdade Cásper Líbero.

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