30/11/2015

Por todos os lados

Machismo no Universo Feminino - Mural

Por Paloma Vasconcelos

É duro pensar que existe, mas, infelizmente, ele é muito frequente. Estão enganados os que definem o machismo como algo exclusivo ao gênero masculino. Ainda que em termos gerais a sociedade seja machista, justiça seja feita ao fato de que o universo masculino está deixando de lado o pensamento obsoleto para aliar-se à reflexão feminista. Em contrapartida, tenho notado mais mulheres propagando o discurso machista. Tudo meio confuso e misturado, né?

Antes das reflexões sobre esse tema tão polêmico e complexo, é importante destrinchar morfologicamente cada um dos termos. Segundo o dicionário Michaelis:

- O machismo é a atitude ou o comportamento de quem não admite a igualdade de direitos para os gêneros, sendo, pois, contrário ao feminismo.

- Por sua vez, feminismo é: 1) Movimento filosófico iniciado na Europa com o intuito de conquistar a equiparação dos direitos políticos e sociais de ambos os sexos.

Agora podemos falar do assunto sem interpretações equivocadas.

Nos primórdios do século XIX, a mulher não possuía permissão ao sufrágio, não podia trabalhar e nem tampouco gozava de liberdade: era propriedade do homem – inicialmente do pai e depois, do marido. Com o decorrer dos anos, tivemos algumas conquistas: votar, trabalho e autonomia dentro dos lares. Graças a essas e muitas outras lutas e sofrimento, deixamos de ser o “sexo frágil”.

Ainda não há equilíbrio e muito menos igualdade entre os gêneros. Para se ter uma ideia, em 2014, a média salarial da mulher na região metropolitana de São Paulo foi 19% menos que a dos homens, segundo a Pesquisa Emprego e Desemprego do Seade (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados) e do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos). A diferença caiu em relação aos últimos 30 anos, porém: assim como a ocupação em cargos estratégicos é inferior – a mesma pesquisa cita, aliás, o crescimento da taxa de desemprego, que foi de 11,7% para 12,2% entre 2013 e 2014.

Isso porque ainda não pensamos nos casos em que somos tratadas como objeto de posse e, por conta disso, “vivemos dando motivos” para que a violência doméstica aconteça. A fragilidade da lei, que deveria nos proteger, é evidente e já deixou muitas morrerem pelo simples fato de terem nascido mulheres.

Quando olhamos para sociedade brasileira,  especificamente, podemos dizer que a situação é difícil. Assim sendo, questiono: não deveria haver união da classe feminina, já que a luta não acabou? Sem dúvidas, sim. Mas a realidade é outra.

Existem algumas situações corriqueiras que todo mundo já ouviu ou presenciou, entre as mulheres:

1) É muito comum, no verão, que os homens saiam de suas casas sem camisa (inclusive nas cidades não litorâneas), certo? Tão habitual que não provoca olhares. Na mesma situação, se uma de nós usa uma roupa “menor” do que a sociedade “permite”, duas situações certamente acontecerão: a) algum do sexo masculino irá soltar uma cantada (e parte de nós não gosta de cantadas, olhares ou qualquer ação indelicada e constrangedora); b) outras mulheres usarão palavras de baixo calão para definir o caráter da pessoa desconhecida – pelo simples fato de levar em conta o tamanho de sua roupa. Completando isso, frequentemente observo a insatisfação feminina com a roupa “da outra”. O ser humano acredita ter um direito que na verdade não tem: o de julgamento. Não parece, mas somos livres para ser o que quisermos. E, nesse sentido, grito pelo justo: podemos e devemos usar a roupa que mais nos agrada; seja ela dessa ou daquela cor, longa ou curta.

2) Outro clássico exemplo de machismo é resumido pela ideia de que o “meu namorado traiu, mas a quem não presta é ela”. Por que a infidelidade é culpa da mulher, e não do caráter dele? Outro ponto semelhante a esse, um homem “pegador”, que fica com várias garotas é: macho, normal, mito. Em equivalência, a mulher que se dá bem na pista, bem… nós sabemos o que se pensa dela.

Tenho consciência de que o problema não se limita apenas às pessoas: está na nossa estrutura, patriarcal. Para a sociedade, o homem precisa ser “macho”: na infância, é proibido de brincar com boneca ou assistir “filmes de menina”, na fase adulta é aconselhável que não seja romântico, não chore e nem pensar em gostar de praticar os afazeres do lar. Do mesmo modo que a mulher: precisa ser recatada, obediente, gostar de cuidar da casa e cozinha (é incentivada a isso, aliás), não pode gostar de futebol, e, claro, precisa ser feminina. Por crescer em uma sociedade extremamente conservadora e machista, é difícil enxergar isso de forma distinta. E o ciclo permanece interminável.

Como comunicóloga e jornalista em formação, confesso que, antes do iniciar a graduação, tinha discursos machistas – apesar de nunca os ter percebido. Quando criança, por causa da formação musical estritamente roqueira em casa, não entendia o motivo pelo qual as cantoras de rock não dançavam e não eram “vulgares”, enquanto as divas pop sim. Durante muito tempo foi difícil não gostar de brincar com boneca e preferir a bola, já que, em todo lugar, ensinavam que esse não era o certo. Mais tarde, o pensamento de como a mulher deveria se portar, principalmente em termos da vestimenta, ainda faziam parte do meu ponto de vista, mas hoje sei o quão equivocado ele era. No decorrer de todo esse tempo, até eu obter uma nova visão, tudo o que apontavam de errado para que eu também julgasse assim era: a mulher sendo ela mesma, apenas. Isto é, sendo o ser humano da forma mais ampla possível e tendo liberdade para mostrar o seu jeito de ser como ele sempre foi.

O feminismo no meio artístico

Destaco uma artista que recentemente tem defendido o discurso feminista de forma clara e honesta ao movimento: a cantora Pitty. Todos sabem da origem nordestina da cantora, o que, no meu ponto de vista, mostra muito de sua personalidade. Ela nasceu na região economicamente mais afetada do país, decidiu cantar rock e é mulher. Ou seja, ela sabe do que está falando! No final do ano passado, ela foi centro de um debate polêmico durante o programa Altas Horas, comandado pelo Serginho Groisman. Na ocasião, defendeu que ainda não temos os mesmos direitos e que não devemos nos comportar de uma forma que agrade os homens, visto que eles não têm o direito de achar coisa alguma à respeito, nem sobre o que fazemos e muito menos sobre o que somos. Pitty compartilha o mesmo pensamento que o meu: o problema está enraizado em nossa sociedade, resultando na propagação do discurso machista pela mulher.

Em outros países é mais fácil ver celebridades engajadas nessa causa, como as atrizes Angelina Jolie, Emma Watson e Patricia Arquette (com o seu discurso feminista na 87ª edição do Oscar, ao receber o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante). Tenho a impressão de que em solo brasileiro ainda há muita resistência, ou medo, de expor e defender o ponto de vista publicamente quando se tem um nome conhecido.

Conhecimento Vale um parêntese para explicar que: o inverso de machismo é o femismo, ou seja, é a ideia da mulher ser superior ao homem e foi a forma encontrada pelas feministas para denominar os preconceitos ao sexo masculino praticados por outras feministas dentro do próprio movimento.


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